Ensinar empreendedorismo também é função do educador

Há alguns dias eu fui à escola dos meus filhos conversar com os professores e fiquei estarrecido com a visão retrógrada sobre educação de um deles em particular, justamente um dos coordenadores. A matéria era Física e a maioria da classe estava indo mal. Depois de todas as explicações dele sobre o choque do primeiro ano do ensino médio e a complexidade da matéria, eu o questionei:

– Desculpe-me, professor, mas eu também atuo em sala de aula e até acho normal que alguns alunos não tenham um bom desempenho. Mas no seu caso, mais de 80% da classe está no vermelho, faltando um bimestre para encerrar o ano. Honestamente, quando isso acontece comigo, acho que o problema não está com os alunos, o problema só pode estar comigo e eu preciso rever alguma coisa no conteúdo ou na metodologia.

– Não tem nada errado comigo ou com meu método de ensino – retruca ele rispidamente – Os alunos que são fracos mesmo. São preguiçosos, não estudam, não se dedicam. A maioria é assim mesmo, não tem jeito. Todo ano é a mesma coisa.

– Todo ano é a mesma coisa? E o senhor acha normal? – Não consegui esconder meu espanto – A minha filha me disse que odeia Física, não quer ouvir falar nada que se relacione a Física, em nenhum tipo de conversa. Eu, como professor, me sentiria profundamente frustrado em saber que meus alunos não gostam da minha disciplina e têm ojeriza às minhas aulas.

– Pois eu não ligo. – me responde o boçal com um sorriso irônico na cara, absolutamente convicto de suas idéias – Eu não faço a menor questão que eles gostem de Física! Eu acho que nossos professores não podem amolecer senão esta molecada não leva nada a sério. Meu papel é fazer estes alunos passarem no vestibular e eles não precisam gostar da matéria para tirar boas notas, precisam só de um estímulo para se esforçar e a pressão e rigidez é o melhor método para isso.

Depois desta resposta, encarei-o em silêncio por alguns segundos, na esperança de dar um tempo para ele repensar e mudar o discurso, mas ele se reclinou na cadeira satisfeito e esperou minha próxima pergunta. Não tive forças para prosseguir o embate, não estava disposto a dar murro em ponta de faca. Simplesmente me levantei e fui embora. No próximo semestre começarei uma nova turma da minha disciplina de Empreendedorismo no Insper e a cada ano procuro fazer mudanças no curso para tornar as aulas mais interessantes e eficazes. Não procuro ensinar para quem já quer empreender, estes já estão encaminhados e só precisam do ferramental, o que o Centro de Empreendedorismo  já oferece. O que eu procuro fazer na minha disciplina é despertar aqueles que nunca pensaram em empreender. Para superar este desafio eu vivo em busca de novas técnicas, novos casos, novas metodologias, novas formas de ensinar.

Empreendedorismo tem muito mais a ver com atitude do que com conteúdo e encontrar um equilíbrio entre teoria e prática é o foco de educadores do mundo inteiro.

Há três semanas a Endeavor realizou um encontro inédito entre educadores de empreendedorismo de todo o Brasil, mais de 90 professores se reuniram na primeira Rodada de Educação Empreendedora no Grande Hotel São Pedro. Entre professores que compartilharam suas técnicas de ensino de empreendedorismo, depoimentos de empreendedores e palestrantes internacionais de altíssimo gabarito, os participantes puderam ampliar sua rede de contatos, trocar experiências e conhecer a situação do ensino de empreendedorismo no País.

Tive a grata satisfação de ser convidado para fazer parte de um painel sobre este assunto, onde apresentei resultados de uma pesquisa que estou conduzindo sobre as intenções de empreender de estudantes último-anistas de 9 faculdades de Sorocaba em 2006. Dentre os resultados da pesquisa, a frustrante constatação de que a maioria acredita que o curso superior pouco contribuiu para prepará-lo para iniciar um negócio próprio.

Depois do que aprendi com outros professores neste encontro, cheguei à conclusão que temos, de uma forma geral, muito a desenvolver nesta área, há ainda um longo caminho a percorrer e muito a aprender sobre como ensinar empreendedorismo. Por outro lado, fiquei muito satisfeito em descobrir que muitos professores pensam como eu e não querem se limitar a passar conteúdo, muito menos atuarem como carrascos em sala de aula, manifestando o sádico prazer de tirar do aluno toda e qualquer paixão sobre empreendedorismo.

Este professor da escola dos meus filhos está certo na sua visão de que os alunos não estão interessados, não querem se esforçar, não vêem valor no que a escola ensina e preferem fazer outras coisas mais interessantes. Porém, na minha visão, a diferença fundamental entre o professor e o educador é que o professor, diante desta situação, nivela por baixo e usa o estímulo negativo (ameaça de reprovação) para atingir seus objetivos, enquanto o educador procura despertar a motivação intrínseca que faz o aluno se interessar pelo tema a tal ponto de procurar o seu auto-desenvolvimento por conta própria, mesmo depois do curso. Ser professor é desempenhar uma profissão, enquanto ser educador é cumprir um propósito.

Atualmente, meu desafio não é só de buscar me tornar um bom educador em empreendedorismo, mas ensinar meus filhos a lidar com maus professores.

Por Marcos Hashimoto no Super Empreendedores

Como ensinar empreendedorismo
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1 COMMENT

  1. Fiquei horrorizada com a atitude do professor da escola dos seus filhos!
    Meus parabéns pela sua visão sobre o que é ser um educador! É de educadores assim que o Brasil está precisando, e tenho muita esperança de que a maioria dos professores que minhas filhas terão ao longo da vida serão mais educadores do que professores.

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