Elas tinham tudo para virar patricinhas, mas são empreendedoras

Elas tinham tudo para virar patricinhas, mas são empreendedorasBonitas, jovens, viajadas e bem nascidas. Elas teriam tudo para se acomodar apenas nesses predicados, assumindo um posto qualquer nos negócios da família. Só que com a profissionalização das empresas, nem sempre há cargos para filhos sem obstinação e talento para determinada área. Isso sem falar que, cada vez mais, pega mal só badalar, fingindo trabalhar apenas por carregar o DNA dos pais empresários.

Juliana Kwak, empresária. Ela sempre contou com o apoio e o incentivo dos pais quando disse que queria montar uma empresa de arquitetura

As moças desta matéria passam longe desse clichê de filhinhas protegidas do papai. Ao invés de estacionar num emprego de herança, resolveram arregaçar as mangas e ir atrás de seus sonhos. Para isso, assumiram a posição: trabalhar duro e ganhar dinheiro com o que entendem e gostam.

Talvez elas nem saibam, mas o Espírito Santo  ocupa o segundo lugar no país em empreendedorismo feminino, perdendo somente para Alagoas. Os dados são de uma pesquisa realizada pelo Sebrae no ano passado. Ela aponta que 49% dos nossos empreendedores individuais são mulheres.

Competência

Juliana, Débora, Suellen e Lorenza, cujas as histórias logo vão conhecer, se encaixam nessas estatísticas. No entanto, as linhas de financiamento e empréstimos bancários que a maioria das mulheres recorre para levantar um empreendimento, no caso delas, é a própria poupança da família. Todas admitem que o cofrinho paterno ajudou muito, mas apenas isso não é suficiente para dar vida longa ao sonho de ter a própria empresa.

A arquiteta Juliana  Kawk, 25 anos, conta que sempre contou com o apoio e o incentivo dos pais quando disse que queria montar uma empresa de arquitetura, algo que passa longe da seara dos negócios da família.

No começo, ela revela que o pai, dono de uma grande rede de lojas de informática, a ajudou não só financeiramente como também com questões burocráticas, como impostos. Um ano depois, no entanto, a empresa de arquitetura de Juliana já anda com as próprias pernas. “Comecei prestando serviço, reformando as lojas do meu pai em shoppings. Só isso foi uma vitrine. As lojas vizinhas viam e já me chamavam para outros trabalhos. Um bom começo para quem não tinha contatos e tradição na área,” avalia.

Débora Leal decidiu seguir um caminho diferente dos pais no trabalho e abriu uma grife de sapatos chamada Manolita

E Juliana promete ir ainda mais longe em seus sonhos, quer transformar a empresa de arquitetura em uma construtora. Ela conta que, desde de muito nova, ficava olhando terrenos para construir prédios. E se depender do faro empreendedor da moça isso não deve demorar muito.

Ju é daquelas que não dorme no ponto, sabe aproveitar uma boa oportunidade e transformá-la em dinheiro. Consegue capitalizar até nos hobbies. Como adora mexer com coisas manuais, começou a personalizar capinhas de celular. Todo mundo começou a perguntar onde ela havia comprado o acessório e logo percebeu aí uma forma de ganhar um dinheirinho extra. Montou um site para comercializar suas capinhas, e o negócio deu tão certo que já revende para vários estados. Com o lucro, pagou viagens inteiras para suas merecidas férias.

Outra que pouco sossega é a empresária Débora Leal, 28 anos, dona da grife de acessórios Manolita. Filha de um empresário do ramo de alimentos, ela encontrou na moda uma forma de conciliar paixão e negócios. “Sempre gostei muito de sapatos, até que resolvi criar os meus”, conta.

E a ideia também deu tão certo que hoje Débora não só revende suas criações para uma loja  badalada de São Paulo, a Cafofo Chic, como fez da sua marca um sucesso de vendas na internet. Só no Instagram, ela possui cerca de oito mil seguidores. E em sua estratégia de vendas online, consegue comercializar para todo país, sem cobrança de frete.

Mas engana-se quem pensa que Débora dá de ombros para os negócios da família. “Meu pai sempre fez questão que eu e minha irmã soubéssemos de tudo que se passa nas empresas do grupo”, diz ela. “E nós sabemos.”

Ter um plano B, aliás, sempre foi um incentivo da família. Foi por isso que Débora nunca abandonou de fato sua formação acadêmica. Advogada, e pós-graduada na área, ela acabou de terminar sua dissertação de mestrado na área de processo civil pela USP. ”Aprendi com meu pai que uma empresa pode falir, mas ninguém tira da gente o nosso conhecimento,” argumenta.

Sempre atenta a novas oportunidades, Débora, bem no meio do mestrado, não mediu esforços na hora de entrar como sócia na Manolita. Levou tão a sério a história que hoje capitaneia sozinha a empresa, já que comprou a parte da antiga sócia. Com fôlego para muito mais, ela já tem planos e metas bem definidas para a sua grife neste ano. ”Quero aumentar os pontos de venda e baratear meu custo de produção”, diz com pose de quem já recuperou o capital inicial e, agora, sem medo de ser feliz, reinveste o lucro na expansão da marca.

Já Suellen Decottignies, 23 anos, ainda está na fase do investimento. Assim como Débora, ela também cursou Direito, mas a paixão pela moda falou mais alto e resolveu trancar a faculdade no sexto período. A ideia foi mergulhar de cabeça na criação de sua grife, que leva a sua assinatura.

E não poderia ser mesmo diferente. Suellen sempre foi uma referência de moda, uma it girl de carteirinha. Filha de um empresário da área de construção civil, cresceu consumindo nas melhores lojas do mundo e desenvolveu um senso estético apurado, apesar de já ter nascido com bom gosto. Mas não se contentava só em comprar. Boa observadora, captava o que existia  de mais quente na moda pelo mundo afora e ia direto na costureira dar vazão as suas ideias. Era usar para receber elogios das amigas, que muitas vezes queriam igual.

Assim, começou a produzir roupas para as amigas, que indicavam para outras conhecidas. E o rol fiel de consumidoras, que têm o mesmo estilo, que vão às mesmas festas e viajam para os mesmos lugares, abriu às portas para a confecção de Suellen deslanchar.

Perspicaz quando o assunto é tendência, ela investe no fast fashion, coleções de lançamentos bem atuais e em curta escala. E também não descarta a produção estilo ateliê, com criações personalizadas. “Há muita gente que chega aqui procurando um vestido para madrinha ou para formatura. Não descarto clientes. Trabalhar com moda sempre é um prazer,” pondera.

Criar não é problema para Suellen. O chato, ela confessa, é mesmo a administração da empresa. Na gestão dela, no entanto, a mãe  está dando uma forcinha. Como participa de tudo, da compra de tecidos ao acompanhamento da produção, mudou totalmente sua rotina. Chega à confecção às 8h30 e diz que não tem horário para sair. “O mais difícil é encontrar mão de obra qualificada, boas costureiras. Sou exigente nos acabamentos”, ressalta.

Essa exigência acabou sendo revertida em bons negócios. Suellen já fechou uma coleção exclusiva para uma butique badalada da Praia do Canto e comercializa minicoleções para outras multimarcas da cidade. “A minha meta é conquistar pontos de venda em outros estados também,” destaca.

Caminho mais doce

Conquistar um novo território, mesmo sem atravessar, literalmente, fronteiras, faz parte da rotina atual da administradora Lorenza Araújo, 36 anos, que resolveu enveredar por novos caminhos, que não apenas a transportadora do pai.

Lorenza resolveu trilhar o caminho das formiguinhas ao montar uma confeitaria, a Dona Caramella. E talento para isso ela já tinha. Só não havia despertado. “Fazia bolos e pudins para presentear os amigos, mas não tinha noção que doces poderiam me render dinheiro”.

Isso só foi despertado quando Lorenza, ao levar o filho para fazer aulas de informática no Senac, resolveu fazer também um curso de brigadeiros gourmets. Surpreendeu-se com o que podia criar com os festejados docinhos. Daí, surgiu o clique de onde nasceu a Dona Caramella, que montou em sociedade com uma amiga designer.

Daí desenvolveram a marca e as embalagens para presentes. Lorenza também resolveu incrementar nas receitas, acrescentando ingredientes inusitados, como cachaça gourmet, gorgonzola e limão siciliano. As invenções culinárias fizeram tanto sucesso que, no último Natal, teve que dispensar encomendas, pois ainda não estava estruturada para tantos pedidos.

O negócio é promissor, mas ainda não se sustenta sozinho. Por isso, Lorenza ainda divide o seu tempo com o trabalho na empresa do pai. A meta, daqui para frente, é viver apenas com os lucros da confeitaria. Afinal, trabalhar com prazer é sempre mais gostoso.

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