O perigo da centralização nas pequenas e médias empresas

Quando olho para um polvo, lembro-me frequentemente da típica e sofrível estrutura de uma pequena ou média empresa: uma única e auto-proclamada cabeça pensante que absorve para si simultaneamente o comando dos variados tentáculos operacionais desse organismo vivo, composto pela equipa de colaboradores e tarefas dependentes. Naturalmente, a multiplicidade das extensões e variedade de funções, esgota compreensivelmente a capacidade de coordenação, comando e verificação analítica do funcionamento correto e ótimo de cada uma delas, otimizando o todo.

Dado o constante e imponderável movimento diversificado das operações conjuntas, paralelas e cooperantes dos membros provenientes desse motor central coordenador, torna-se fácil perder a perspectiva e derrapar em rotinas de atraso regular, ineficiência operacional e incapacidade de orientar o movimento futuro do octópode, fazendo-o progredir de forma pouco ou nada graciosa: a tarefa imediata cai rapidamente no limbo do tropeço constante, a tarefa vital enrola-se metodicamente em nós acumulados e fazem o polvo cambalear, equilibrando-o “ad eternum” numa quase queda perpétua e sempre timidamente adiada.

Delegue tarefas e concentre-se no planejamento estratégico

Esse polvo operacional, dotado de extensões de si próprio, cada uma delas com a sua particularidade e autonomia operacional, deve delegar o controle da micro-tarefa para o maquinista dessa extremidade, ficando o macrocéfalo órgão mais ligado ao planejamento estratégico. Porque não combinar e coordenar momentos específicos para relatórios e pontos de situação que apenas quem toca no terreno e sente as dificuldades diárias da progressão no terreno pode sentir? Os membros operacionais, também eles pensantes no seu cosmos mais centrado na execução, podem agir estrategicamente sobre a sua própria natureza, constituindo assim um organismo pluricelular de gestão diferenciada: um que olha a longo alcance e delineia a estratégia de progressão e angariação de metas a longo prazo: outro, mais centrado e preso nos obstáculos diários, que se concentra em contornar as pedras do dia-a-dia, traçando a estratégia de locomoção em paralelo.

De forma coesa, articulada, paralela e contribuinte para o mesmo objetivo, divide-se assim a estratégia corrente diária da estratégia setorial e de longo alcance: a que verdadeiramente pode fazer o octópode caminhar mais alto entre iguais, agarrando oportunidades que apenas de cima se podem visualizar. Esta é a mentalidade que urge mudar: o açambarcamento constante de todas as tarefas de naturezas múltiplas em estruturas pensantes de um indivíduo só que concentra em si o papel de estratégia, decisor, diretor de recursos humanos, diretor de comunicação, marketing e também gestor financeiro. Naturalmente, sendo o tempo escasso e as tarefas infinitas e sucessivas, resvala-se rapidamente para o caos orgânico.

É importante que cada gestor se rodeie de pessoas (os seus tentáculos operacionais e dinamizadores) com liberdade de atuação, responsabilidade de gestão e competências, assentes em pensamento diferenciado. É sabido que as equipas multidisciplinares são mais produtivas do que conjuntos movidos apenas a uma voz sonante e sem variações, contradições ou pensamentos distintos: a diversidade é amiga e fomenta a progressão.

Por isso, se sente que a sua empresa é um polvo, converse mais com os seus tentáculos. Eles terão bastantes mais soluções para alimentar o cérebro global da empresa.

Por Gabriel Galvão no Webilidade

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo, parabéns!

    Hoje a grande dificuldade das PMEs está em delegar mesmo.
    E o pior é que quando estas empresas crescem, dificilmente seus líderes conseguem romper com esse centralização.

    Vemos empresas de grandes portes que ainda são comandadas por uma única pessoa, que tenta movimentar todos os “tentáculos”ao mesmo tempo, e acabam-se em nós!

    Ser pequeno ou médio empreendedor é desafiante em todos os aspectos, inclusive e principalmente na organização do negócio. Ter uma boa idéia não é suficiente para se ter sucesso, precisa ter parceiros de confiança, sejam dentro da empresa ou fora.

    Por outro lado, o mercado não está preparado para amparar as PMEs. Prova disso é a falta de empresas de contabilidade, agências de comunicação e empresas de tecnologia focadas em atender esse público.

    Espero que o mercado acorde para essa realidade, que o PME gere demanda para estes segmentos de apoio e que estes também respondam à altura.

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